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domingo, 2 de fevereiro de 2014

COMUNICAÇÃO AO SERVIÇO DE UMA AUTÊNTICA CULTURA DO ENCONTRO

Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais
48º DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS
Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro
1 de Junho de 2014
Mensagem do Santo Padre Francisco
Queridos irmãos e irmãs, Hoje vivemos num mundo que está a tornar-se cada vez menor, parecendo, por isso mesmo, que deveria ser mais fácil fazer-se próximo uns dos outros. Os progressos dos transportes e das tecnologias de comunicação deixam-nos mais próximo, interligando-nos sempre mais, e a globalização faz-nos mais interdependentes. Todavia, dentro da humanidade, permanecem divisões, e às vezes muito acentuadas. A nível global, vemos a distância escandalosa que existe entre o luxo dos mais ricos e a miséria dos mais pobres. Frequentemente, basta passar pelas estradas duma cidade para ver o contraste entre os que vivem nos passeios e as luzes brilhantes das lojas. Estamos já tão habituados a tudo isso que nem nos impressiona. O mundo sofre de múltiplas formas de exclusão, marginalização e pobreza, como também de conflitos para os quais convergem causas econômicas, políticas, ideológicas e até mesmo, infelizmente, religiosas.
Neste mundo, os mass-media podem ajudar a sentir-nos mais próximo uns dos outros; a fazer-nos perceber um renovado sentido de unidade da família humana, que impele à solidariedade e a um compromisso sério para uma vida mais digna. Uma boa comunicação ajuda-nos a estar mais perto e a conhecer-nos melhor entre nós, a ser mais unidos. Os muros que nos dividem só podem ser superados, se estivermos prontos a ouvir e a aprender uns dos outros. Precisamos de harmonizar as diferenças por meio de formas de diálogo, que nos permitam crescer na compreensão e no respeito. A cultura do encontro requer que estejamos dispostos não só a dar, mas também a receber de outros.
Os mass-media podem ajudar-nos nisso, especialmente nos nossos dias em que as redes da comunicação humana atingiram progressos sem precedentes. Particularmente a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus. No entanto, existem aspectos problemáticos: a velocidade da informação supera a nossa capacidade de reflexão e discernimento, e não permite uma expressão equilibrada e correta de si mesmo. A variedade das opiniões expressas pode ser sentida como riqueza, mas é possível também fechar-se numa esfera de informações que correspondem apenas às nossas expectativas e às nossas ideias, ou mesmo a determinados interesses políticos e económicos. O ambiente de comunicação pode ajudar-nos a crescer ou, pelo contrário, desorientar-nos.
O desejo de conexão digital pode acabar por nos isolar do nosso próximo, de quem está mais perto de nós. Sem esquecer que a pessoa que, pelas mais diversas razões, não tem acesso aos meios de comunicação social corre o risco de ser excluído. Estes limites são reais, mas não justificam uma rejeição dos mass-media; antes, recordam-nos que, em última análise, a comunicação é uma conquista mais humana que tecnológica. Portanto haverá alguma coisa, no ambiente digital, que nos ajuda a crescer em humanidade e na compreensão recíproca? Devemos, por exemplo, recuperar um certo sentido de pausa e calma. Isto requer tempo e capacidade de fazer silêncio para escutar.
Temos necessidade também de ser pacientes, se quisermos compreender aqueles que são diferentes de nós: uma pessoa expressa-se plenamente a si mesma, não quando é simplesmente tolerada, mas quando sabe que é verdadeiramente acolhida. Se estamos verdadeiramente desejosos de escutar os outros, então aprenderemos a ver o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como se manifesta nas várias culturas e tradições. Entretanto saberemos apreciar melhor também os grandes valores inspirados pelo Cristianismo, como, por exemplo, a visão do ser humano como pessoa, o matrimônio e a família, a distinção entre esfera religiosa e esfera política, os princípios de solidariedade e subsidiariedade, entre outros.
Então, como pode a comunicação estar ao serviço de uma autêntica cultura do encontro? E – para nós, discípulos do Senhor – que significa, segundo o Evangelho, encontrar uma pessoa? Como é possível, apesar de todas as nossas limitações e pecados, ser verdadeiramente próximo aos outros? Estas perguntas resumem-se naquela que, um dia, um escriba – isto é, um comunicador – pôs a Jesus: «E quem é o meu próximo?» (Lc 10, 29 ).
Esta pergunta ajuda-nos a compreender a comunicação em termos de proximidade. Poderíamos traduzi-la assim: Como se manifesta a «proximidade» no uso dos meios de comunicação e no novo ambiente criado pelas tecnologias digitais? Encontro resposta na parábola do bom samaritano, que é também uma parábola do comunicador. Na realidade, quem comunica faz-se próximo. E o bom samaritano não só se faz próximo, mas cuida do homem que encontra quase morto ao lado da estrada. Jesus inverte a perspectiva: não se trata de reconhecer o outro como um meu semelhante, mas da minha capacidade para me fazer semelhante ao outro.
Por isso, comunicar significa tomar consciência de que somos humanos, filhos de Deus. Apraz-me definir este poder da comunicação como «proximidade». Quando a comunicação tem como fim predominante induzir ao consumo ou à manipulação das pessoas, encontramo-nos perante uma agressão violenta como a que sofreu o homem espancado pelos assaltantes e abandonado na estrada, como lemos na parábola. Naquele homem, o levita e o sacerdote não vêem um seu próximo, mas um estranho de quem era melhor manter a distância. Naquele tempo, eram condicionados pelas regras da pureza ritual.
Hoje, corremos o risco de que alguns mass-media nos condicionem até ao ponto de fazer-nos ignorar o nosso próximo real. Não basta circular pelas «estradas» digitais, isto é, simplesmente estar conectados: é necessário que a conexão seja acompanhada pelo encontro verdadeiro. Não podemos viver sozinhos, fechados em nós mesmos. Precisamos de amar e ser amados. Precisamos de ternura. Não são as estratégias comunicativas que garantem a beleza, a bondade e a verdade da comunicação. O próprio mundo dos mass-media não pode alhear-se da solicitude pela humanidade, chamado como é a exprimir ternura. A rede digital pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas.
A neutralidade dos mass-media é só aparente: só pode constituir um ponto de referimento quem comunica colocando-se a si mesmo em jogo. O envolvimento pessoal é a própria raiz da fiabilidade dum comunicador. É por isso mesmo que o testemunho cristão pode, graças à rede, alcançar as periferias existenciais. Tenho-o repetido já diversas vezes: entre uma Igreja acidentada que sai pela estrada e uma Igreja doente de auto-referencialidade, não hesito em preferir a primeira.
E quando falo de estrada penso nas estradas do mundo onde as pessoas vivem: é lá que as podemos, efetiva e afetivamente, alcançar. Entre estas estradas estão também as digitais, congestionadas de humanidade, muitas vezes ferida: homens e mulheres que procuram uma salvação ou uma esperança. Também graças à rede, pode a mensagem cristã viajar «até aos confins do mundo» (Act 1, 8). Abrir as portas das igrejas significa também abri-las no ambiente digital, seja para que as pessoas entrem, independentemente da condição de vida em que se encontrem, seja para que o Evangelho possa cruzar o limiar do templo e sair ao encontro de todos. Somos chamados a testemunhar uma Igreja que seja casa de todos.
Seremos nós capazes de comunicar o rosto duma Igreja assim? A comunicação concorre para dar forma à vocação missionária de toda a Igreja, e as redes sociais são, hoje, um dos lugares onde viver esta vocação de redescobrir a beleza da fé, a beleza do encontro com Cristo. Inclusive no contexto da comunicação, é precisa uma Igreja que consiga levar calor, inflamar o coração. O testemunho cristão não se faz com o bombardeio de mensagens religiosas, mas com a vontade de se doar aos outros «através da disponibilidade para se deixar envolver, pacientemente e com respeito, nas suas questões e nas suas dúvidas, no caminho de busca da verdade e do sentido da existência humana (Bento XVI, Mensagem para o XLVII Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013). Pensemos no episódio dos discípulos de Emaús. É preciso saber-se inserir no diálogo com os homens e mulheres de hoje, para compreender os seus anseios, dúvidas, esperanças, e oferecer-lhes o Evangelho, isto é, Jesus Cristo, Deus feito homem, que morreu e ressuscitou para nos libertar do pecado e da morte.
O desafio requer profundidade, atenção à vida, sensibilidade espiritual. Dialogar significa estar convencido de que o outro tem algo de bom para dizer, dar espaço ao seu ponto de vista, às suas propostas. Dialogar não significa renunciar às próprias ideias e tradições, mas à pretensão de que sejam únicas e absolutas. Possa servir-nos de guia o ícone do bom samaritano, que liga as feridas do homem espancado, deitando nelas azeite e vinho. A nossa comunicação seja azeite perfumado pela dor e vinho bom pela alegria.
A nossa luminosidade não derive de truques ou efeitos especiais, mas de nos fazermos próximo, com amor, com ternura, de quem encontramos ferido pelo caminho. Não tenhais medo de vos fazerdes cidadãos do ambiente digital. É importante a atenção e a presença da Igreja no mundo da comunicação, para dialogar com o homem de hoje e levá-lo ao encontro com Cristo: uma Igreja companheira de estrada sabe pôr-se a caminho com todos. Neste contexto, a revolução nos meios de comunicação e de informação são um grande e apaixonante desafio que requer energias frescas e uma imaginação nova para transmitir aos outros a beleza de Deus.

Vaticano, 24 de Janeiro – Memória de São Francisco de Sales – do ano 2014.

FRANCISCUS

terça-feira, 13 de agosto de 2013

VOCAÇÃO: ENCONTRO DE DUAS LIBERDADES

Na linguagem popular considera-se que só algumas pessoas “têm vocação” ou, então, que só os padres e religiosas recebem uma vocação. Às vezes em conversas até mesmo informais sobre este assunto algumas pessoas ficam assustadas ou incomodadas. Porém, o entendimento desta questão começa pela constatação de que todos têm uma vocação, um chamado.

Vocação é o mesmo que chamado, escolha, predestinação. Cada pessoa é chamada por Deus para realizar algo. Alguns certamente como padres e religiosos, mas muitos outros como solteiros ou casados, como pais e avós, como profissionais, como membro de uma família, de uma pastoral ou de uma comunidade de fé. Ou melhor, cada um tem uma vocação especifica.

Falar de vocação é falar da busca por uma vida plena que, paradoxalmente, coincide com a vida plena das outras pessoas ao seu redor. Por isso, o discernimento da vocação sacerdotal passa por um processo de escuta do que Deus vai propondo à pessoa. Não existe uma receita pronta, nem fórmulas infalíveis para se chegar à resposta.

A vocação não pode ser entendida como sacrifício, como se Deus só se alegrasse com o mais custoso, doloroso. Vocação é um encontro de duas liberdades: a de Deus, que é livre para chamar a quem quiser, e a da pessoa, que é livre para responder. E se o processo de discernimento é escuta, então, torna-se essencial a confiança em Deus e na sua vontade. Assim como o profeta Isaias (6, 1-8) soube responder o chamado de Deus, também cada pessoa precisa aprender a reconhecer a “Voz de Deus”.

José Aparecido de Miranda

2º ano do curso de teologia

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

AGOSTO: MÊS VOCACIONAL

No Brasil o mês de agosto é sempre uma oportunidade para que possamos refletir sobre o chamado que Deus nos faz para vivermos de um modo mais concreto a nossa vocação à santidade, que recebemos no dia em que fomos batizados.
Na primeira semana, lembramos a vocação sacerdotal, refletimos sobre a sua importância para a Igreja e rezamos ao Senhor da messe para que envie operários, de modo que não faltem padres para cuidar das mais diversas comunidades espalhadas pelo Brasil.
Em seguida, recordamos a vocação religiosa. Nossa mente se volta para os homens e mulheres que se consagraram a Deus através dos conselhos evangélicos da pobreza, castidade e obediência para viverem em comunidade segundo o carisma de seus fundadores e servirem à Igreja e ao povo de Deus nos mais diferentes serviços, sejam de natureza religiosa ou social. Lembramo-nos também dos missionários e missionárias que deixaram suas terras e foram para os locais mais distantes no serviço do Reino de Deus, anunciando Jesus Cristo aos que ainda não O conhecem.
Há também outra vocação que não pode ser esquecida: a dos fiéis leigos e leigas que, através do exercício de ministérios não ordenados, se fazem presentes nas comunidades eclesiais e no mundo e se dedicam à evangelização na família, no trabalho profissional e no seu ambiente social, para santificar o mundo e fazer com que ele deixe de ser a cidade dos homens para tornar-se a cidade de Deus. Dentre os diferentes ministérios leigos, o último domingo de agosto destaca a catequese, comemorando o dia dos catequistas.
Grandes santos são lembrados neste mês, como: São João Maria Vianney, o Cura D’Ars, padroeiro dos párocos; São Lourenço, padroeiro dos diáconos; Santo Afonso Maria de Ligório, fundador da Congregação dos Missionários Redentoristas; São Tarcísio, padroeiro dos coroinhas; Santa Rosa de Lima, padroeira da América Latina e, de modo especial, nossa Santa Mãe do Céu, Maria Santíssima, que é recordada na solenidade da sua Assunção, nos apontando o feliz destino de todos os que dizem “Sim” a Deus.
O tema vocacional é, de modo especial, voltado para os jovens. É um apelo para que todos procurem ouvir a voz de Deus e dizer sim ao seu chamado para servirem concretamente ao seu Reino.
Rezemos para que a Mãe Aparecida abençoe a Igreja, e, especialmente, os jovens, a fim de que sejam fiéis no seguimento de Jesus Cristo e obedientes ao mandato de seu Fundador e Mestre: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos”. O Papa Francisco, em sua homilia da Santa Missa para a 28ª JMJ, afirma: “Não tenham medo! Quando vamos anunciar Cristo, Ele mesmo vai a nossa frente e nos guia. Ao enviar seus discípulos em missão, Jesus prometeu: “Eu estou com vocês todos os dias” (Mt 28,20). E isto é verdade também para nós! Jesus nunca deixa ninguém sozinho! Sempre nos acompanha.”
Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida (SP)
Presidente da CNBB
Fonte: CNBB – 05/08/2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

A REVOLUÇÃO DA MULHER

Nas últimas décadas temos presenciado uma verdadeira revolução na história da mulher. A mulher descobre cada vez mais seu potencial diversificado abrindo campo em muitas áreas. Mesmo enfrentando fortes opositores, a cultura machista vem perdendo campo. Assim, ao comemorarmos o dia internacional da mulher, vale uma reflexão: quais serão de fato as conquistas da mulher moderna e quais as consequências destas mesmas conquistas?
Na verdade esta revolução já vem de longa data. Se olharmos bem o início do cristianismo, com as posições de Jesus e seus seguidores, a mulher é elevada a uma situação de igualdade de gênero saindo da posição cultural de submissão. Pena que muitas culturas, em muitos países, inclusive cristãos, não conheceram ou não aderiram à novidade do ensinamento cristão.
Atualmente, no campo do trabalho, talvez seja o lugar de maior ampliação de conquistas da mulher. E talvez também, o lugar maior de uma exploração camuflada. Isto é, “dá-se com uma mão e toma com a outra”. Vejamos melhor.
Primeiro é preciso lembrar que vivemos em um mundo cada vez mais voltado para o ter, para o produzir, para o consumir... Expressões claras de um capitalismo cada vez mais liberal e sofisticado. E, com a descoberta do potencial diversificado feminino, a mulher se tornou “uma das melhores máquinas de produção”, com selo de qualidade e fidelidade feminina. Assim, a liberdade conquistada tornou-se, muitas vezes, um grande meio de exploração mascarada pelo poder econômico.
Outro aspecto revolucionário na historia da mulher dá-se no campo do belo, da beleza natural, da sensualidade feminina. Quebra-se muitos tabus que a história cultural e religiosa submetiam as mulheres. Contudo, muitos tipos de violência, antes escondidas, tomaram forma e corpo. Muitas formas de exploração, prostituição, abusos, estupros, gravidez precoce, vieram à tona. Neste sentido, percebe-se claramente que muitos de nós, mulheres e homens, não fomos educados para viver em plena liberdade social e sexual, assumindo os compromissos e consequências dessa necessária liberdade.
Assim, fica evidente a revolução pelas conquistas que a mulher vem fazendo. E, com certeza, muitas conquistas ainda precisam acontecer em muitos campos. Contudo, também se percebe a necessidade cada vez maior de uma educação e compreensão, de mulheres e homens, para a ampliação e uso destas conquistas. Pois, o essencial talvez ainda precise ser conquistado: mulheres e homens viverem em paz, em harmonia, com justiça social e políticas públicas garantidas, com respeito ao bem comum! Isto é, mulheres e homens descobrirem e viverem as dimensões de um verdadeiro Amor.

José Carlos de Paula Araújo

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

E o Verbo se fez carne... Não livro!


Aproxima-se o Natal de Jesus. Natal não é só o aniversário do nascimento d’ Ele, mas é a celebração do Emanuel, do Deus conosco. Jesus, o Verbo de Deus, um dia desceu entre nós, “se fez homem”, assumiu a nossa condição humana em tudo exceto o pecado, deu a sua vida para nos reconciliar com o Pai e entre nós e, cumprida a sua missão, retornou ao Pai.
Mas a sua presença real permaneceu sobre a terra de várias maneiras: na Eucaristia, na sua Palavra, em cada irmão, sobretudo nos pobres, entre nós unidos em seu nome, nos pastores da Igreja. Uma das presenças reais do Verbo, que é Deus, é, portanto a Palavra de Deus. O nosso Papa Bento XVI na Exortação Apostólica pós–Sinodal “Verbum Domini” ao n. 50 afirma: “Na Palavra de Deus proclamada e ouvida e nos Sacramentos, Jesus hoje, aqui e agora, diz a cada um: "Eu sou teu, dou-Me a ti", para que o homem O possa acolher e responder-Lhe dizendo por sua vez: "Eu sou teu".
Assim a Igreja apresenta-se como o âmbito onde podemos, por graça, experimentar o que diz o Prólogo de João: "A todos os que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus" (Jo 1, 12).
A partir dessas breves considerações, podemos superar um conceito ainda presente na cabeça e no coração de muitos cristãos: o de absolutizar o livro, a palavra escrita, a letra da Escritura, esquecendo que o Verbo se fez carne, não livro. De fato no presépio nós não colocamos um livro, mas uma criança, a indicar que, quando Deus se manifestou ou se manifesta, ele entra na vida das pessoas e o seu projeto se torna “carne da gente”, vida da gente, transformando-nos em filhos e filhas muito amados porque encarnamos em nós a Palavra que um dia se fez homem e habitou entre nós.
Isso é tão verdade que a própria escritura afirma: “A letra mata. O Espírito é que dá a vida!” (2 Cor 3,6). Podemos assim afirmar que como pelo Espírito o Verbo se fez carne no seio da Virgem Maria, assim, pelo Espírito, a Palavra se torna vida dentro da Igreja na existência de muitos fiéis que, colocando-a em prática, se tornam filhos e filhas de Deus.
O Natal deste ano para a Igreja e para a nossa diocese tem a marca da nova evangelização na comemoração dos 90 anos da sua criação. É dever nos perguntar, depois de tanto tempo de caminhada, se conseguimos passar para a vida o vigor e a novidade da Palavra que se fez carne e sobretudo se conseguimos transmitir esta vida, gerada pela Palavra, na experiência concreta dos fiéis, de modo particular para as novas gerações.
Às vezes temos a impressão que um certo cansaço tome conta da vida das nossas comunidades, que até os agentes de pastoral tenham perdido o encanto do encontro com Jesus e que a Palavra que acolhemos na nossa vida não anime mais a nossa ação pastoral e evangelizadora. É preciso retornar ao “primeiro amor” (cf. Ap 2,4), reacender a lamparina apagada enchendo-a do óleo de consagração que nos tornou discípulos e missionários do Senhor no dia do nosso batismo e crisma tornando-nos fermento, sal e luz do mundo.(cfr. Mt 5,13-14.13,33)
Natal, festa da luz, festa da vida, festa do Amor, reanime os nossos corações e nos dê alento, alegria e entusiasmo no testemunho e no anúncio de Jesus Cristo e do seu Reino.
FELIZ E SANTO NATAL PARA TODOS!!!
Dom Francisco Biasin
Bispo de Barra do Piraí/Volta Redonda (RJ)
Fonte: CNBB

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Ficar ou não Ficar: Eis a Questão!


O tempo vigente sustenta-se em paradigmas antagônicos desde a década de 1960 à de 80. Esses novos paradigmas são novos para quem os viu surgir, mas são referenciais dominantes para os que já nasceram e vivem em sua plena vigência. A sociedade é dinâmica e movente e está em constante transformação. Esses novos referenciais tendem a se reconfigurar, tornando-se igualmente anacrônicos, para a geração seguinte, em um ciclo infinito.
A Mídia é uma grande incentivadora das tendências dissolventes dos valores elevados da cultura humana. Isso se dá, nos diversos segmentos midiáticos: televisão, revistas, jornais e internet.  Constantemente elas derramam na massa social a ideia de que está na moda o ato de se “ficar” com várias pessoas, sem que mantenha vínculo duradouro com ninguém, uma vez que assim, segundo os critérios dessa moral de consumo, aplicada na dinâmica amorosa, amplia-se a quantidade de experiências afetivas sem levar em consideração sua profundidade.
Conversando com jovens e adolescentes acerca desta temática, percebe-se que o "ficar" pode ser oriundo de uma tentativa sincera de "acertar" o parceiro com quem se dividirá a bela e dolorosa jornada pela vida afora ou, mais comumente, fruto de um sistema e um tempo que transforma até mesmo as pessoas em objeto de uso e trocas mercantis. Tudo isso é fruto de uma ideologia na qual já crescemos envoltos, e necessita de um distanciamento crítico para superar esta tendência.  Não se pretende aqui criticar, evidentemente, quem busca com sinceridade de coração "acertar" e sabemos sobejamente como isto é difícil no mundo em que o equívoco prima sobre o unívoco.
A pós-modernidade caracteriza-se como uma sociedade marcada pelo consumismo e tantas outras vertentes que tornam o homem cada vez mais desligado dos valores ensinados no passado. Assim, para além de um consumo de mercadorias (objetos inanimados), os indivíduos da sociedade líquido-moderna tem avassaladoramente transformado o corpo em um bem supremo, em objeto de consumo.
As relações amorosas estão hoje entre os dilemas mais penosos com que o ser humano precisa confrontar e solucionar. Nestes tempos líquidos, é mister, mais do que nunca, a ajuda de um companheiro leal: “até que a morte nos separe”. Nos dias de hoje isso não é mais um imperativo ou uma norma-guia para casais. Compromissos de tempo determinado ameaçam frustrar e atrapalhar as mudanças que um futuro longínquo, desconhecido e imprevisível pode exigir. Porém, sem compromisso, fidelidade e disposição para com o outro, não se pode pensar num amor verdadeiro. Deste modo, a fórmula “até que a morte nos separe” dá lugar a uma forma mais atual: “até que o outro nos separe”. Tudo isso construído sobre a base inconsistente de um poema: “que seja eterno enquanto durar”.
Muito se vê em eventos ou festas, pessoas que sem nunca terem visto antes, se conhecem e imediatamente contratam o local da “noitada” de amor ilimitado. Ambos não querem se comprometer, mas querem simplesmente curtir aquele momento, já pensando que a próxima experiência de amor será mais estimulante, mas não tanto a próxima que ainda pode vir a acontecer. Existem muitos eventos assim: micaretas, carnavais, baladas, dentre muitos outros lugares. Aí, os valores da sociedade temporariamente são esquecidos, abrindo espaço à “novos” valores mais condizentes com o ambiente. E se os valores da sociedade são esquecidos, bem mais esquecidos são os valores Evangélicos, ensinado e vivido por Jesus.
Em suma, o ser humano necessita transcender a realidade que o cerca. Tendo o pleno uso da razão, é necessário um distanciamento crítico da realidade. Para a superação da descartabilidade da vida, se lhe oponham os valores da solidariedade, da compreensão recíproca e do amor, em torno de um “ethos” de transparência entre os indivíduos.

Hedivan Júnior - Seminarista da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo socorro e São Sebastião, Ponto dos Volantes, Diocese de Araçuaí e está cursando Teologia no Seminário Nossa Senhora do Rosário - Caratinga. http://www.diocesedearacuai.com.br/n/artigo/ficar-ou-nao-ficar-eis-a-questao



quinta-feira, 25 de outubro de 2012

ORAÇÃO EM FORMA DE POESIA

Senhor, autor da criação, protegei as nossas dúvidas, porque a Dúvida é uma maneira de rezar. É ela que nos faz crescer, porque nos obriga a olhar sem medo para as muitas respostas de uma mesma pergunta. E para que isto seja possível,
Senhor, unigênito, divino, e humano, protegei as nossas decisões, porque a Decisão é uma maneira de rezar. Dai-nos coragem para, depois da dúvida, sermos capazes de escolher entre um caminho e o outro. Que o nosso SIM seja sempre um SIM, e o nosso NÃO seja sempre um NÃO. Que uma vez escolhido o caminho, jamais olhemos para trás, nem deixemos que nossa alma seja roída pelo remorso. E para que isto seja possível,
Senhor, protegei as nossas ações, porque a Ação é uma maneira de rezar. Fazei com que o pão nosso de cada dia seja fruto do melhor que levamos dentro de nós mesmos. Que possamos, através do trabalho e da Ação, compartilhar um pouco do amor que recebemos. E para que isto seja possível,
Senhor, protegei os nossos sonhos, porque o Sonho é uma maneira de rezar. Fazei com que, independente de nossa idade ou de nossa circunstância, sejamos capazes de manter acesa no coração a chama sagrada da esperança e da perseverança. E para que isto seja possível,
Senhor, dai-nos sempre entusiasmo, porque o Entusiasmo é uma maneira de rezar. É ele que nos liga aos Céus e à Terra, aos homens e às crianças, e nos diz que o desejo é importante, e merece o nosso esforço. É ele que nos afirma que tudo é possível, desde que estejamos totalmente comprometidos com o que fazermos. E para que isto seja possível,
Senhor, protegei-nos, porque a Vida é a única maneira que temos para manifestar o Teu milagre. Que a terra continue transformando a semente em trigo, que nós continuemos transmutando o trigo em pão. E isto só é possível se tivermos Amor - portanto, nunca nos deixe em solidão. Dai-nos sempre a tua companhia, e a companhia de homens e mulheres que têm dúvidas, agem, sonham, se entusiasmam, e vivem como se cada dia fosse totalmente dedicado à Tua glória.
Deus, Pai da Vida, nós não queremos nem a chegada, nem a partida, mas a travessia. Pois já somos Criaturas vossas e, no entanto, o colo de Deus se estende a todos nós. Amém!
Paulo Henrique Gomes

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Santa Terezinha e as missões


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Iniciamos outubro, mês das Missões, com a memória belíssima de Santa Tereza do Menino Jesus e da Sagrada Face, que viveu os últimos decênios do século XIX, falecendo, portanto, 115 anos atrás. Era francesa de Alençon. Tornou-se carmelita em Lisieux, por isso é também conhecida como Santa Tereza de Lisieux.
Muito do que conhecemos de Santa Terezinha do Menino Jesus é extraído de suas próprias anotações, que ficaram conhecidas como “História de uma alma: manuscritos autobiográficos”, publicados pela primeira vez em 1898, menos de um ano depois de seu falecimento. Foram escritos três cadernos, que ficaram numerados como Manuscrito A (dedicado à Reverenda Madre Maria Inês de Jesus), Manuscrito B (Carta à Irmã Maria do Sagrado Coração), e Manuscrito C (dedicado à Madre Maria de Gonzaga). Os escritos são lembranças e reflexões narradas em estilo simples e de grande profundidade teológica e espiritual.
No início do Manuscrito B, parágrafo 251, Santa Terezinha escreve: “Apesar de minha pequenez, quisera esclarecer as almas, como os Profetas, como os Doutores. Tenho a vocação de ser Apóstola... Quisera percorrer a terra, apregoar teu nome e implantar em terra de infiéis tua gloriosa Cruz. Mas, ó meu Bem-Amado, uma única missão não seria bastante. Quisera anunciar, ao mesmo tempo, o Evangelho pelas cinco partes do mundo, até as ilhas mais remotas... Quisera ser missionária não só por alguns anos, mas quisera sê-lo desde a criação do mundo, e sê-lo até a consumação dos séculos... Mas, acima de tudo, quisera, ó meu amado Salvador, por ti quisera derramar meu sangue até a última gota”... (História de uma alma: manuscritos autobiográficos. 21. ed. São Paulo: Paulus, 1986, p. 211-212).
Santa Terezinha foi canonizada em 1925. No centenário de seu falecimento, em 1997, foi declarada Doutora da Igreja pelo Papa João Paulo II, tornando-se a terceira Doutora, ao lado de Santa Catarina de Sena e Santa Tereza de Ávila.
Ao declarar Doutora a padroeira das Missões, João Paulo II queria dizer que os ensinamentos de Santa Terezinha não se limitam apenas a seu tempo, mas transcendem os séculos e são atuais para os homens e mulheres de nosso tempo.

Padre Ismar Dias de Matos
p.ismar@pucminas.br

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

FESTA DE NOSSA SRA DO ROSÁRIO

FESTA DE NOSSA SRA DO ROSÁRIO: RESISTÊNCIA E MEMÓRIA [1]

                        Artigo produzido por Josélia Barroso Queiroz Lima, doutoranda em Educação, pela Universidade Estadual de Maringá.

            Um verdadeiro testemunho da riqueza do patrimônio imaterial brasileiro, a Festa do Rosário é realizada em diversas cidades do país. Com uma origem histórica que remonta ao século XVI, através da vitória dos cristãos portugueses sobre os muçulmanos, na Batalha de Lepanto - atribuída não apenas à estratégia militar mas também à proteção da Virgem do Rosário - o culto se perpetuou no Brasil tanto pela extrema fé dos cristãos portugueses como pela crença dos escravos, que a têm como padroeira.(http://www.revistamuseu.com.br/naestrada/naestrada.asp?id=6431)

            Este artigo visa retomar, do ponto de vista histórico, a importância da Festa de Nossa Senhora do Rosário como símbolo do sincretismo religioso que marca a cultura brasileira. Por sincretismo entende-se a mistura de múltiplos elementos culturais que revelam as diferentes culturas que compõem o povo brasileiro. Em especifico, no caso em questão, busco retomar a importância do povo negro, que trazido da África, na condição de escravo pelos povos europeus, se tornam no Brasil o principal instrumento de construção da colônia. Seja via mineração, seja via pecuária e agricultura o povo negro foi, durante o período colonial e imperial, a mão de obra que fez este pais acontecer. No entanto, para além da produção econômica, eles nos deixaram uma memória imaterial incalculável. Pois, no processo de enfrentamento da violência branca: simbólica e física, no seio do catolicismo, única religião aceita no período colonial e imperial, pela via das Irmandades dos Homens Pretos, e da Irmandade do Rosário, eles encontraram um modo de expressão de suas crenças e de seus anseios por liberdade.

             Segundo Soares (2011; p.411):‘as irmandades eram um dos poucos espaços institucionais de acesso a liberdade. As práticas de votação para eleição das mesas diretoras das “irmandades de homens pretos” (escravos, forros e livres) deve ser vista como uma das expressões dessa liberdade”...  No período colonial,  a desigualdade entre homens brancos e negros era entendida como natural, pois decorria da vontade divina, o discurso religioso católico, dado pelo colonizador europeu organizava o cotidiano. E ainda hoje nas cidades coloniais como Diamantina, Serro e Sabinópolis tem-se as marcas desse período: as edificações das Igrejas à  Nossa Senhora do Rosário,  esta ocorria para que se realizasse o culto religioso pelos povos negros, sendo também um símbolo da separação entre homens pretos e homens brancos.

            A origem colonial de São Sebastião dos Correntes, atual Sabinópolis, remonta ao século XIX, ao ano de 1805, quando as terras são doadas e aqui vieram os primeiros moradores e junto trouxeram também aqueles que deveriam trabalhar a terra, os escravos. Os documentais paroquiais datados de 1822, assinados por Bento de Araujo Abreu, então capelão de São Sebastião dos Correntes registram os nascimentos, dos primeiros moradores, entre eles os nascimentos dos filhos de escravos. Cabia a Igreja Católica, pelo regime de padroado[2], o registro de nascimento, pois ela era o órgão oficial através do qual a colônia era organizada.
 Por outro lado, as fontes documentais da Paróquia de São Sebastião dos Correntes, assinados por Vigário Marcellino Nunes Ferreira, registram a organização das Festas a Nossa Senhora do Rosário como festas dos homens e mulheres negras. Nela o Rei e a Rainha, escravos, escolhidos através da votação feita na Irmandade do Rosário cultuavam a Santa. O sincretismo religioso se revela ao mostrar que no culto a Senhora do Rosário, os povos negros puderam manter o culto a seus orixás[3] e a musicalidade que tem no tambor o símbolo da cultura africana. Via Festa, os negros assumiam outra posição social diferente da que no cotidiano colonial possuíam. Sendo a Rainha e o Rei da Festa a Nossa Senhora do Rosário podiam viver o papel de poder e liberdade dado socialmente aos senhores brancos. Na irmandade, homens e mulheres podiam exercer o papel de poder ao votarem e serem votados, ocupando o papel de “irmãos de mesa”, Juízes, Mordomos de bandeiras e de mastro. Os dados documentais revelam que via festa, no ano de 1889 e 1890 foi concluída a edificação da Igreja do Rosário, marco que ainda hoje é referencia do Bairro do Rosário.  Os meses de ocorrência da festa não apontam para uma única data, assim conforme os documentos a festa aconteceu em janeiro, fevereiro, junho, agosto e setembro de diferentes anos: 1856, 1869, 1870, 1871,1890, o que nos indica que ela sempre foi anual, porém não necessariamente em Agosto. Na composição da festa tínhamos: os fogos, as músicas, as bandeiras, o rei e a rainha.
As Irmandades e a Festa do Rosário são marcas do catolicismo popular. No entanto, no período republicano, a igreja fez o enfrentamento desses modos de expressões religiosas. Assim, explica-se porque em 1903 a Irmandade São Sebastião é instituída e a Irmandade do Rosário ‘perde’ seu poder. Explica-se ainda porque a Festa do Rosário é retomada por Monsenhor Amantino, mas assumindo um caráter português. No qual o reinado é vivido por reis e rainhas brancos e os negros voltam a ser representados na condição de mucambos e mucambas. Tal posição foi uma tentativa da igreja de fazer frente ao pensamento liberal republicano, controlando a religiosidade popular.

            Ao pesquisar nossa historia, via documentação paroquial, resgatamos a importância da negritude como povo, que vivendo sua fé, via festa e ritos, pôde marcar nossa cultura, ainda hoje. Nesse sentido, a Festa do Rosário remete-nos ao nosso passado e ao nosso presente, ao nos convocar a refletir sobre a celebração da vida, pois enfrentando o julgo da escravidão com os tambores, as bandeiras e a vivência do lugar de reis e rainhas, durante séculos, os africanos mantiveram a força e a crença na liberdade. E se hoje, vivemos tempos de igualdade de direitos é importante retomar a memória, para  construirmos relações que revelem de fato tal igualdade no campo social.


REFERENCIAS :

Soares, Mariza de Carvalho: Política sem cidadania: eleições nas irmandades de homens pretos, século XVIII. In- Carvalho e Campos- Jose Murilo e Adriana Pereira (orgs.)- Perspectivas da Cidadania no Brasil Império. Jose Murilo de Carvalho e Adriana Pereira Campos; [tradução Edna Parra Candido]. Rio de Janeiro:  Civilização Brasileira, 2011.
KUNG, Hans.  Religiões do Mundo: em busca dos pontos comuns. Tradução Carlos Almeida Pereira. Campinas: Versus Editora, 2004.



[1] Este artigo decorre dos trabalhos de pesquisa de doutorado, na qual venho pesquisando sobre a relação entre religião católica e educação escolar em Sabinópolis. A pesquisa nos arquivos paroquiais possibilitaram o levantamento de documentos que comprovam ser a festa a Nossa Senhora do Rosário uma celebração de origem portuguesa, mas que no Brasil possibilitou a expressão  dos negros escravos.
[2]  Regime político estabelecido entre a Coroa Portuguesa e a Religião Católica o registro de nascimentos, óbitos e casamentos.
[3] Diferente do povo europeu, a religiosidade africana tem nos orixás- a representação das forcas da vida, da energia vital existente na matéria. Kung (2004) coloca-nos que a relação do homem tribal (africano e indígena) com a terra é de cuidado, pois ela é santificada pelos espíritos passados. O passado, o presente e o futuro constituem uma unidade indissociável, pois no mundo visível o eterno está invisivelmente presente. Portanto, não há necessidade de orações ou sacrifícios a divindades fora do mundo, como na tradição cristã, pois a eternidade não está no atemporal, mas no temporal, na natureza

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

FAMÍLIA: UNIÃO ENTRE TRABALHO E FESTA

Celebramos, em toda a Igreja no Brasil, a Semana Nacional da Família. A Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da CNBB e a Comissão Nacional da Pastoral Familiar lançaram o tema deste ano que é: “Família: trabalho e festa”. O trabalho e a festa estão intimamente ligados à vida das famílias: Condicionam suas escolhas, influenciam o relacionamento entre os cônjuges e entre pais e filhos, incidem sobre a relação da família com a sociedade em geral e com a Igreja. A Bíblia (Gênesis 1-2) nos diz que a família e o trabalho constituem dádivas e bênçãos de Deus para nos ajudar a viver uma existência plenamente humana.

O livro dos Atos dos Apóstolos oferece-nos a imagem da primeira comunidade dos cristãos, praticantes da fé entre a casa e o templo. A festa e o domingo constituíam o momento para renovar a vida da comunidade, de tal modo que os fiéis assumiam o ambiente da vida familiar e a família se abria ao horizonte da comunhão eclesial. A festa do dia do Senhor nos lança para a além de nós mesmos, é dia de comunhão e da missão. Jesus quer libertar a família das discórdias, ajudar a superar os obstáculos e quer que na unidade dela ser instrumento de união entre as famílias com esse trabalho fazer uma verdadeira festa cristã com Cristo no centro de tudo.

A narração bíblica das origens apresenta a criação do ser humano, homem e mulher, como obra de Deus, fruto do seu trabalho. Deus cria o ser humano, como o oleiro que modela o barro. O homem, por sua vez, tem de Deus a liberdade de trabalhar na natureza, cultivando-a e guardando. O sopro de vida que Deus infunde na humanidade, dá a ela criatividade, força, genialidade e vigor para colaborar na sua obra criadora.

Ao celebrarmos em nossas comunidades a Semana Nacional da Família, a Igreja no Brasil quer, uma vez mais, salientar a importância da família, que, talvez mais que outras instituições, têm sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações da sociedade e da cultura na pós-modernidade. Por isso, é fundamental um olhar atento, dirigido com carinho, afeto e atenção à família, patrimônio da humanidade e tesouro dos povos.

Tradicionalmente a Igreja no Brasil celebra desde 1992 a Semana Nacional da Família. Ela teve início como resposta à inquietação, ao descontentamento e ao desejo de fazer alguma coisa para defesa e promoção da família, cujos valores vêm sendo agredidos sistematicamente na sociedade atual. Escolhendo-se, então, a semana seguinte ao Dia dos Pais, no mês de agosto, por ser o mês vocacional. Conta-se com os subtemas publicados no subsídio “hora da família” que nos ajudam a aprofundar esse importante assunto e, principalmente, nos motiva a viver ainda mais como famílias cristãs.

Neste ano, a Semana Nacional da Família ocorrerá entre os dias 12 e 18 de agosto. Sua proposta é ajudar a reforçar os laços familiares de nosso povo, proporcionando, assim, que as células saudáveis do tecido social ajudem o nosso corpo a viver melhor. O Concílio Vaticano II afirmou que a família é a “Igreja Doméstica”, lugar em que Deus reside e é reconhecido, amado, adorado e servido.  Além disso, ensinou que a salvação da pessoa e da sociedade humana está intimamente ligada à condição feliz da comunidade conjugal e familiar. Por isso, um olhar atento haverá de ser dirigido à família, que deve ser considerada um dos eixos transversais de toda ação evangelizadora da Igreja.

Consoante ao Documento de Aparecida, a “família é um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos e é patrimônio da humanidade inteira. Em nossos países, uma parte importante da população está afetada por difíceis condições de vida que ameaçam diretamente a instituição familiar. Em nossa condição de discípulos e missionários de Jesus Cristo, somos chamados a trabalhar para que esta situação seja transformada e que a família assuma sua identidade e sua missão no âmbito da sociedade e da Igreja”. (DAp 451)

A família é uma instituição de origem divina, com semelhança à família trinitária. Ela somente readquirirá a dignidade que foi perdida quando voltar a ser o reflexo da família trinitária, na qual Deus não só é Pai, mas paternidade, Jesus Cristo não é apenas filho, mas filiação e o Espírito Santo, não é somente união, mas unidade.

A família, para cumprir sua missão de autora do bem-estar do ser humano, terá que, cada vez mais, ser poço de paternidade, berço da filiação e comunidade de amor. A Pastoral Familiar poderá contribuir para que a família seja reconhecida e vivida como lugar de realização humana, a mais intensa possível, na experiência de paternidade, maternidade e filiação. A família é lugar de trabalho e de festa.

O vínculo matrimonial que nasce do amor recíproco se exprime pelo juramento conjugal, que começa e se realiza diante da infinita majestade de Deus por aquele mesmo amor com que o Pai nos amou no seu Filho, Jesus Cristo, e nos santifica pelo Espírito desse Amor, que é o Espírito Santo. A Semana da Família é um dos grandes programas missionários da igreja, e por isso deve ser planejada com antecedência para que atraia também as famílias de amigos da Igreja.

Seminarista: Jaciel Dias de Andrade
3º ano de filosofia
Diocese de Guanhães

sexta-feira, 29 de junho de 2012

São Pedro e São Paulo

O dia 29 de junho é marcado por uma solenidade muito especial na vida da Igreja, que recorda os dois pilares da fé cristã, que, com afinco e dignidade, trabalharam para que nossa fé crescesse e se consolidasse. A Solenidade de São Pedro e de São Paulo, por razões pastorais, no Brasil, é transferida para o domingo seguinte. Estes apóstolos foram homens de pregação e de testemunho eloquentes, que ensinaram para toda a Igreja um ardor sempre crescente pelas coisas de Deus. A fé de Pedro e o ardor missionário de Paulo são motivos de bendição a Deus, que opera maravilhas na vida de seus santos em favor de todo o gênero humano. Ambos, por causa do Evangelho, ofereceram livremente suas vidas e foram martirizados em Roma. Pedro por crucifixão e Paulo por decapitação.
Pedro recebeu a missão especial de conduzir o rebanho de Cristo, a Igreja. Paulo anuncia a Boa-Nova e proclama às nações a Palavra, manifestando-lhes o Evangelho da Salvação. O anúncio e o pastoreio, em comunhão com os mais profundos ensinamentos de Jesus, fazem da Igreja um sustentáculo vivo de edificação de vidas comprometidas com o Reino de Deus aqui na Terra. A Igreja, como guardiã do "depósito da fé", vê em Pedro e em Paulo anunciadores ímpares e fundamentais para o crescimento da Palavra de Deus no mundo inteiro. Por esse motivo celebramos, neste dia, o Dia do Papa. O Papa é o sucessor do Apóstolo Pedro e tem a missão de conduzir a Igreja na Verdade, que é Cristo, firmada e alicerçada sempre mais na Palavra de Deus e no Testemunho dos apóstolos.
Portanto, é um dia especial de oração pelo Santo Padre, o Papa Bento XVI, pedindo que Deus o conserve e o ilumine com todas as luzes para bem servir à Igreja e ser sinal para o mundo. Os sofrimentos vividos com serenidade e paz pelo Papa Bento XVI são sinais da fortaleza do Espírito Santo em sua vida. A Igreja recolhe hoje em todas as missas o “óbolo de São Pedro”, como presente ao Santo Padre, que ele utiliza para as obras caritativas pelo mundo.
Pedro e Paulo são considerados "colunas mestras" da Igreja primitiva. Eles são responsáveis, sem dúvida, pelo desenvolvimento da Igreja tal qual aconteceu. Suas personalidades diferentes, mas colocadas a serviço da evangelização, celebradas no mesmo dia, são expressão da natureza da Igreja – comunhão na diversidade. Diversidade de carismas e ministérios e um único Senhor e mestre: Jesus Cristo. Com tudo e com todos, como diria São Paulo, tornar Cristo sempre mais conhecido e amado, seguido e testemunhado.
Olhando para este contexto de comunhão na diversidade, é notável o testemunho de assistência do Espírito Santo à sua Igreja. Em cada época e situação, ele suscita na Igreja um Pontífice, chamado a dar ênfase numa determinada questão de época enfrentada pela Igreja. Cada qual dá seu testemunho e sua colaboração segundo as inspirações do próprio Deus para nós.
Esta solenidade nos ajuda a rezar por toda a Igreja e perceber a presença contínua do Senhor junto dela, ajudando-a a enfrentar as adversidades e as ondas gigantes que se lançaram no passado, e, ainda hoje, sobre a barca de Pedro, conduzida agora por Bento XVI. A Igreja está edificada sobre a pedra angular, que é Cristo, e por isso mesmo nunca estará só.
Os apóstolos Pedro e Paulo são modelos de discípulos de Jesus, missionários do Mestre, seguidores do Cristo. A pregação de Pedro, constante e convincente, mostra que Jesus constituiu a sua comunidade a partir de pessoas fracas e simples, pequeninas, revelando que Deus se utiliza dos fracos para confundir os fortes, e assim vai se realizando a história da salvação.
Olhando para o exemplo de Pedro e Paulo, rezemos por toda ação missionária da Igreja em nossos tempos, com seus muitos e complexos desafios para a evangelização. Que assim como Pedro e Paulo encontraram caminhos e posturas coerentes para superarem as situações próprias de seu tempo, Bento XVI também os encontre e possa, assim, continuar conduzindo a Igreja de Cristo pelos mares da contemporaneidade. Que a Igreja leve Cristo a todos e em todas as situações.
Rezemos juntos pelo Santo Padre o Papa: "Ó Deus, que na vossa providência quisestes edificar a vossa Igreja sobre São Pedro, chefe dos apóstolos, fazei que o nosso Papa Bento XVI, que constituístes sucessor do apóstolo Pedro, seja para o vosso povo o princípio e o fundamento visível da unidade da fé e da comunhão na caridade. Concedei ao que faz as vezes do Cristo na Terra confirmar na fé seus irmãos, para que toda a Igreja se mantenha em comunhão com ele no vínculo da unidade, do amor e da paz, até que, em vós, pastor das almas, cheguemos todos à verdade e à vida eterna". Amém!
Que São Pedro e São Paulo continuem assistindo, com a sua graça e exemplo, ao Papa e ao Colégio Universal dos Bispos para testemunhar Cristo Bom Pastor, que guia a Igreja pelo mundo!

Dom Orani João Tempesta - Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Páscoa e Ressurreição

O Senhor ressuscitou. Aleluia! “E disso nós somos testemunhas”, diz o apóstolo Pedro na 1ª leitura (At 10, 34-43). Hoje, segunda, dia 9 de abril, começa a oitava pascal. Uma semana inteira de comemoração da vitória de Jesus sobre a morte. A páscoa judaica começou na noite de sexta-feira, 6 de abril (para os judeus, dia 14 de Nissan) e dura, também, oito dias. É a festa da libertação de Israel da escravidão egípcia.
Dizemos que Páscoa é passagem. Significa, também, passar por cima, saltar, porque o Anjo que matou os primogênitos dos egípcios "saltou", isto é, "passou por cima" das casas judias marcadas pelo sangue do cordeiro, poupando os seus filhos mais velhos (Ex 12, 21-30). É costume, entre os judeus, os primogênitos jejuarem, como recordação do perigo a que estiveram expostos no Egito. Durante esses dias não comem pão e outras comidas fermentadas, para se lembrarem de quando um povo inteiro, conduzido pela vontade de Deus encarnada em Moisés, saiu tão apressadamente do Egito que a massa preparada para a fabricação do pão não teve tempo de fermentar. Nas primeiras noites celebra-se o Seder, durante o qual conta-se a história da festa, bebendo vinho; come-se a Matzah (pão sem fermento), harosset (ervas amargas) que trazem a recordação simbólica da escravidão no Egito e, depois, a libertação.
Na nova Páscoa, celebramos a vida do novo Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29.36): “Foste imolado e, por teu sangue, resgataste para Deus homens e mulheres de toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 5,9).
A Ressurreição não é um fato isolado na vida de Jesus, mas é a realização de toda a sua mensagem, de sua vida. Cristo é o novo Adão, no qual todos somos vivificados (1 Cor 15, 22; Rm 5, 14).A Ressurreição é uma luz que lança raios para a frente e para trás, ilumina o passado e o futuro.
A Ressurreição de Jesus é o ponto de partida de todo o Cristianismo, de toda a Teologia cristã. A partir dela, os apóstolos releem toda a história de seu Mestre, pois o que aconteceu é mais que a revivificação de um cadáver, devolvendo-lhe a Bios, a vida física. É muito mais do que o que Jesus fez com o filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17), com a filha de Jairo (Mc 5, 35-43) e com Lázaro (Jo 11). É a transformação radical da existência corporal para uma existência do espírito, com a corporalidade glorificada. Jesus sempre foi a imagem visível de Deus invisível (Cl 1, 15), a epifania de Deus; sempre foi Deus corporalmente presente no mundo; nele habita corporalmente a plenitude da divindade (Cl 2,9); e, portanto, ao ressuscitar, Cristo assumiu a vida conforme Deus.
A evidência histórica da Ressurreição repousa no testemunho dos discípulos e dos apóstolos: “O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão” (Lc 24, 34). Ninguém viu, ninguém presenciou, ninguém “registrou” a Ressurreição de Jesus. Portanto, não é um fato crítico-epistemológico, histórico e encontrável por um cientista. O que temos de histórico é o testemunho dos apóstolos. O historiador pode verificar que houve homens que creram e pregaram a Ressurreição, fato acessível pela fé. Historicamente aconteceu algo na vida dos apóstolos, pois homens simples foram transformados em pregadores fantásticos, corajosos, destemidos. Eles, em suas pregações, insistem em dizer que o que morreu crucificado é o que agora ressuscitou (1 Cor 15, 3-4; At 2, 23-24).
Qual é o sentido que damos hoje à Páscoa/Ressurreição de Cristo? O que pregamos e vivemos hoje? Uma autossalvação, o homem dominando a Bios? A vida material? O homem quer dominar a vida orgânica (a simples Bios), muito aquém da vida Zoé (Eterna). Qual é a eternidade que buscamos? Que imortalidade queremos? Que Páscoa buscamos?

Padre Ismar Dias de Matos
p.ismar@pucminas.br

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Convertei - vos e crede no Evangelho

Com a quarta feira de cinzas, dia de jejum e abstinência iniciamos um novo tempo na igreja; o tempo da Quaresma, no intuito assim de celebrar de coração renovado, o mistério pascal de Jesus. A celebração em si e o ato de imposição das cinzas nos lembram de o que Jesus nos diz no Evangelho: “Convertei-vos e crede no Evangelho”, e a oração (benção das cinzas) é uma súplica a fim de que Deus derrame copiosas bênçãos para todos os que receberão as cinzas, prosseguindo na observância quaresmal possam celebrarem de coração purificado o mistério Pascal.
Durante todo esse tempo, a Igreja faz uma caminhada toda voltada para os principais acontecimentos da vida de Cristo, levando-nos a refletirmos a nossa vida, enquanto cristãos, amados por Deus e peregrinos rumo ao Reino.
A cada ano, em comunhão com todas as comunidades, a Igreja no Brasil nos convida a refletirmos sobre um tema, o qual nos provoca e requer de nós um assumir algumas propostas que nos ajudam a melhor relacionarmos com as experiências que acontecem em nossa comunidade de fé.  O tema, o qual a Igreja propôs a nós esse ano tem como Tema: “Fraternidade e saúde pública”, e Lema: “Que a saúde se difunda sobre a terra!” (Cf. Eclo, 38,8), como forma de difundir melhor qualidade de vida a todos.
A cada domingo, além desse tema da Campanha, o próprio Evangelho nos coloca em contato com uma realidade vivida por Jesus e que muitas vezes é até nossa realidade. Sendo assim, temos:
Primeiro Domingo: Jesus sendo tentado no deserto. Umas das maiores tentações nossas hoje seriam o poder o ter e o prazer.
Segundo Domingo: Jesus é Transfigurado no Monte Tabor. É preciso transfigurar de nossas más aparências que nos impedem de ressuscitarmos.
Terceiro Domingo: Jesus expulsa vendedores do templo. Às vezes somos motivados a abusar do nosso corpo e esquecemos que ele é Templo de Deus.
Quarto Domingo: Jesus se mostra como vida e luzO que nos impede de fazer essa experiência de vida e luz.
Quinto Domingo: A morte nos devasta, mas Jesus é sinal de glorificação.  Muitas vezes vemos a morte como o fim de tudo e esquecemos de que Cristo é o caminho a verdade e a vida, Ele é a salvação. 
Que Cristo nos ajude a vencermos todas essas ciladas e chegarmos com o coração puro à festa central da nossa fé, que é a Páscoa de Cristo, nossa páscoa.


 Michel Hoguinele - Seminarista Diocesano

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Carnaval ou Retiro?


Festa antiga e tradicional, o carnaval prepara o povo para o início da Quaresma. Inicialmente era somente uma festa religiosa e o seu significado era a "festa da carne", pois diante da realidade de vivenciar 40 dias em abstinência de carne, as famílias cristãs cozinhavam os melhores assados nesse período. O povo se juntava para festejar a chegada de uma época nova, preparando-se para um tempo de jejum e penitência.
Atualmente, o significado das festas religiosas tem se esvaziado, e tem influenciado o pensamento atual de que no “Carnaval pode-se tudo”. Tudo fica liberado. Bebida, drogas, sexo. Muita gente exagera e se machuca porque se excede nos dias de Carnaval. Quantas marcas deixadas por relacionamentos imaturos, liberalidades, uso de drogas, excessos na bebida.
A cada ano, nesse período, jovens, estudantes, famílias e comunidades eclesiais participam de Retiros, acampamentos e outras iniciativas que atraem pessoas de todos os lugares. É Deus que vem convidar seus amigos para alimentar a alma e não o corpo. Retiro que prepara para o tempo da Quaresma, tempo de revisão de vida, de recomeço, de conversão.
Enfim, o Carnaval e a Quaresma nos colocam o desafio do aprendizado do amor verdadeiro, que cada ano precisamos refazer. É, como escreve Maria Clara Bingermer, como se todo o ritual carnavalesco, tão apaixonadamente preparado e vivido pelo povo e que tantos milhões rende aos bolsos dos donos das festas e desfiles só deixasse brilhar seu verdadeiro sentido quando o silêncio da Quarta-feira de cinzas se faz, com seu ritual das cinzas aplicadas em cruz sobre a testa dos penitentes acompanhado das palavras: “Convertei-vos e crede no Evangelho”.
A quarta-feira onde tudo se acaba, proclama sua morte, que se encontra, agora, assumida pela disciplina da Quaresma e o Carnaval, com todo o brilho e o ruído que atraem todos os focos de atenção, na verdade está simplesmente resumindo algo de fulgor bem maior e duradouro: os três dias de folia se referem e encontram significação no mistério cristão, já que a festa carnavalesca nasce, agoniza e morre em três dias.

Dom Moacyr Grechi - Administrador Apostólico de Porto Velho.

Fonte: http://paroquiasaocristovaopvh.org.br


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

OCUPAÇÕES NECESSÁRIAS

Acabou dia 1º de novembro a ocupação da USP, com a presença da tropa de choque da PM, obviamente. Pessoas que, como eu, não entendem os reais motivos da ocupação, e por isso sem o direito de julgar, xingaram esses estudantes de toda a sorte de nomes...
Praticamente toda a minha vida, frequentei escolas públicas e, de certa forma, me interesso pela questão da educação, sobretudo na rede pública. Assim, sei um pouco o quanto a nossa rede de ensino pública carece de mudanças de verdade e não apenas meras “pinturas”.
Ora, tanto nas escolas do interior onde estudei (algumas nem existem mais) quanto na UFMG, onde estudo hoje, há barbáries que precisam ser enfrentadas e não apenas maqueadas.  Há aulas que dão desânimo ouvir. Sem desmerecer quem sobrevive de capinar, porque já fui um deles e me orgulho por isso, há professores que não servem nem para capinar roça...
Penso que esse confronto alunos x “escola”/polícia pode nos levar a discussões mais produtivas do que  meramente tachar de baderneiros os primeiros e como violentos os segundos: é sabido que  todos os dias a polícia desce o pau em “um” e quem lucra é apenas os repórteres “abutres” que aproveitam dos telespectadores também “sanguinários” para galgarem pontuação significativa no IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) e, obviamente, elevarem seus salários. Todos os dias, um monte de “reitores”, seguidos por um bando de “professores”, repetem aulas enfadonhas e quem lucra é apenas o mercado capitalista que a cada dia recebe “novos profissionais” ávidos a repetir teorias. Devem ser excetuados vários professores que são ótimos e merecem todo o respeito.
Pelo menos para mim, que estou fora do contexto em questão (ocupação da reitoria da USP em protesto contra a ação policial dentro do Campus), e por isso me resguardo de eventuais equívocos, esse assunto deveria ser discutido em conjunto (estado, alunos, professores e demais funcionários da escola). Todavia, é nada mais nada menos que utópico esperar tanta sensatez  de um país inteiro que não parece estar nada a fim de discutir problemas que precisam ser encarados, sem hipocrisia.
Quem defende que a polícia surre os estudantes, pode ser o seguinte. Quem acha que a polícia deve sair de lá (como pretendem os alunos), pode ser o próximo a ser assaltado. E, para fechar, sem delongas esse singelo texto, quem pensar que o “reitor” é sábio o suficiente para decidir sozinho os rumos da “escola”, pode ser o próximo a matricular o filhinho querido em escola pública, sobretudo de periferia, e esperar inocentemente que ele aprenda algo que lhe possa ser útil enquanto pessoa.
Será mesmo possível continuarmos vivendo sem discutir “de verdade” os problemas, sem hipocrisia? Será que um dia vamos perceber que exitem algumas ocupações que são necessárias?

Adilson Ramos da Silva
Psicólogo

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Comunidade Paróquial São Sebastião - Rua Diamantina, 05 Centro - Sabinópolis (MG) - Fone: (33)3423 1369 | E-mail: paroquiadesabinopolis@gmail.com